Muita ênfase se faz no dia das mães, comerciais pipocam a todo instante na televisão, restaurantes recebem reservas, as mães se preparam para os presentes e o comércio para os lucros. Mas também não é pra menos, é o dia da nossa genitora, é o dia de quem nos colocou no mundo, quem nos deu carinho, atenção e educação. Correto? Nem sempre. Nem todas as mães são iguais, assim como nem todos os pais também são. A natureza da mulher é ser mãe, isso é fato, porém existem mulheres que não nasceram pra ser mãe. Não falo do sentido biológico-físico, mas sim no amadurecimento mental e espiritual. Do mesmo modo, existem homens que não nasceram para ser pai. Não falo no macho, no fecundador, e sim naqueles que cumprem o seu papel de pai como educador e amigo.
Então, o que falar daqueles que são realmente pais? Aqueles pais que também são mães nos momentos necessários? Sei que esses são minorias mas, ainda sim, existem . Conheço alguns, inclusive posso me incluir nesse pequeno e feliz grupo. Concordo que nunca um pai vá substituir uma mãe, são diferentes, em suas brincadeiras, carinhos e conversas, porém ambos se completam. Não quero criar discussões sobre os sexos, não é esse o propósito deste artigo. O propósito aqui é fazer entender uma figura que muitas vezes passa despercebida em nossa vida e só nos damos conta quando se vai. Nossos genitores.
Confesso que demorei muito tempo pra compreender o meu pai, necessariamente 23 anos quando também me tornei um e comecei a me enxergar como filho. Meus pais são separados desde que eu tinha um ano de idade e sempre julguei meu pai nos momentos em que precisei dele e não estava ao meu lado. As poucas lembranças que tenho do meu pai na minha infância, são dos passeios em que ele me levava aos lugares que ele gostava. Não me lembro de ter ido a um parque, praça, shopping, zoológico, andar de mãos dadas com ele, nada disso. Mas isso não fez dele um mal pai, era o jeito dele, talvez um reflexo de sua criação.
Meu pai precisou nos meu primeiros anos de minha vida trabalhar fora, as coisas aqui, apesar da aparente felicidade, não o levaria a lugar algum. Assim como uma grande maioria de nordestinos, foi tentar a sorte em São Paulo. Pra sorte dele e a de toda família, deu certo. Digo sorte porque meu pai só concluiu até a 5ª série e muito provavelmente forçado. Eu era muito pequeno pra entender tudo e tenho poucas lembranças das vezes em que ele vinha me visitar e me levava para seus passeios: feira de animais e sebo atrás de LPs antigos, principalmente os de forró (sua paixão), lembro ainda das capas dos LPs: Trio Nordestino, Nando Cordel, Jorge de Altinho, entre outros. Esses eram meus momentos com ele.
Ás vezes nós nos falávamos por telefone, mas telefone era outra coisa complicada na época, poucos e caros, não existia essa facilidade atual. Celular? Nos anos 80s ,isso ainda não existia no Brasil, o uso de fichas telefônicas era o que tinha de melhor. Internet? Nem existia isso, era coisa pra americano e seus nerds universitários. Messengers? Redes de Relacionamento? Era utopia. E sabe o que eu fazia quando falava com ele? Pedia algo. - Pai compra isso, compra aquilo. Coisas de criança que meu filho repete da mesmo forma comigo.
Meu pai passou vários anos em São Paulo e conseguiu, com sua humildade e simplicidade acima de tudo, fazer o seu pé-de-meia. Casou novamente, teve uma filha, conseguiu comprar casas, sítios, carros, cavalos e bois aqui no Nordeste. Tinha uma vida confortável mas, não tava feliz, vivia em uma selva de pedras que não lhe pertencia. Sua paixão era o Nordeste e sua cultura. Mas como qualquer ser humano com personalidade própria, ele cansou de não ser o seu próprio eu. Meu pai precisava viver, ser ele mesmo, e decidiu que voltaria por Nordeste e realizaria seu sonho: morar em um sitio. Fez o que poucos, hoje em dia, tem coragem pra fazer: pediu demissão, abandonou tudo e foi viver sua vida.
Confesso que no primeiro momento me perguntei por que simplesmente meu pai não esperou se aposentar pra vir mais sossegado. Mas hoje em dia eu o admiro e penso comigo mesmo - a vida é tão efêmera que creio que todo ser humano, uma hora ou outra, acaba por se perguntar sobre sua passagem nesse mundo. Meu pai teve atitude e coragem. Resolveu viver. Claro que tudo tem seu preço, e as vezes caro, ele teve que enfrentar a família, abandonar a esposa e filha - minhã irmã que talvez se revolte com tudo isso e não compreenda, porém uma dia talvez ela seja mãe e enxergue as coisas de outra forma. É como fala na música Pais e Filhos de Legião Urbana: "Você culpa seus pais por tudo, isso é um absurdo. São crianças como você. É o que você vai ser, quando você crescer."
Ele ainda tentou realizar seu grande sonho morando em um sitio, mas a violência do nosso mundo o fez acordar e o forçou a sair do lugar. Atualmente meu pai mora num interior aqui de Pernambuco, casado e creio que feliz com suas escolhas. Nos vemos com mais freqüência agora, procuro ter mais contato na intenção de querer conhecê-lo e fazer com que me conheça também. Tenha a consciência que nunca vou resgatar o passado, mas tenho como agendar meu futuro.
Hoje em dia tenho uma visão muito diferente de tudo que ocorreu, minha cabeça já não é mais a mesma. Me tornei um homem, sou pai e tenho tentado me descobrir como filho. Não consigo falar que o amo, pois existe a burrice adulta que impede que nós filhos diga eu te amo para nossos pais, mas o reconheço como pai, com admiração e respeito.
Pai, obrigado por tudo.
JNeto - Pai e, agora também, filho.

